Introdução à Inteligência Artificial Genérica

11:29 am Inteligência Artificial

Andróide IBMDurante a VIII Semana de Informática na PUC Minas São Gabriel, que ocorreu de 04 a 07 de maio deste ano (2010), eu tive prazer de ministrar uma palestra para os alunos sobre um tema bastante polêmico, atual e que fascina muita gente. Intitulada “Introdução à Inteligência Artificial Genérica”, a apresentação, que durou aproximadamente 1:40h, iniciou com uma breve revisão da origem/história da área Inteligência Artificial (IA) e com uma descrição das diversas ramificações que emergiram dentro da disciplina, desde o seu surgimento. Foram ilustrados alguns projetos que deram o pontapé inicial às sub-áreas de pesquisa (ramificações), como planejamento de ações e tomada de decisão, aprendizado de máquina, além de dar uma visão geral sobre o estado-da-arte da IA Genérica. Um dos principais objetivos da IA Genérica é a criação de sistemas computacionais para a resolução de problemas gerais, que exijam inteligência para serem solucionados. Projetos importantes como OpenCog, OpenNars, HTM, entre outros, foram apresentados ao público, que demonstrou bastante interesse, principalmente com a possibilidade de poder contribuir com os projetos livres e de código aberto, como o OpenCog. Mas eu tinha reservado uma surpresa para eles. Uma densa viagem através das idéias, teorias e previsões do inventor e futurista Ray Kurzweil, sobre a evolução tecnológica.

É complicado falar de Inteligência Artificial Genérica atualmente sem mencionar a Singularidade (tecnológica), que é um assunto para vários posts. Mas, de forma geral, podemos entender a Singularidade (tecnológica) como um momento na história da humanidade onde o progresso tecnológico acontecerá de forma tão acelerada, que será impossível prever o impacto desta evolução no mundo. O resultado será máquinas andando sobre a terra com o objetivo de exterminar a humanidade uma mudança permanente e irreversível na forma com que vivemos.

Kurzweil aponta três vertentes tecnológicas que levarão a humanidade à Singularidade: Genética, Nanotecnologia e Robótica (GNR). A Inteligência Artificial é aplicável a todas elas. Dessa forma, foi possível traçar um paralelo entre IA e cada uma delas, exemplificando com alguns trabalhos.

Exponencial vs Linear

Kurtzweil também fez diversas diversas previsões sobre o futuro da tecnologia, inclusive que a Singularidade ocorrerá por volta de 2044. É importante dizer que tais previsões são fundamentadas em um detalhado estudo, por ele realizado, sobre a evolução tecnológica. Tal estudo permitiu a definição de um modelo comportamental para o processo evolutivo da tecnologia. Diferentemente do que muitos pensam, o modelo é exponencial e não linear. Então, quando algum cientista afirma que somente teremos uma Inteligência Artificial, semelhante às vistas em filmes e livros de ficção científica, daqui a vários séculos, ele está usando um modelo linear para defender seu ponto de vista e não o proposto por Kurzweil. Assim, baseando-se na premissa de que a tecnologia evolui exponencialmente, Kurzweil vêm fazendo previsões desde a década de 1980, sendo que várias já se concretizaram conforme previstas. Por exemplo, a explosão da Internet no início dos anos 90 e a derrota do campeão humano de xadrez para um computador no final da década de 1990 (Kasparov foi derrotado pelo Deep Blue em 1997).

Se tudo ocorrer conforme previsto por Kurzweil, teremos, nas próximas décadas, sistemas computacionais capazes de realizar cópias da nossa mente para um meio digital, computadores emulando o cérebro humano, nano robôs navegando em nossa corrente sanguínea e se comunicando com sistemas computacionais externos para nos dar capacidades sobre-humanas (mais inteligência, mais velocidade, mais resistência, etc.)

Ciborgues já existem! (DARPA)

Cyborgs já existem! (DARPA)

Andróides também (Prof. Ishiguro - Osaka University)

Andróides também (Prof. Ishiguro - Osaka University)

Conforme mencionado anteriormente, foram apresentados ao público alguns projetos de Inteligência Artificial Genérica. Como funcionam, para que servem, suas aplicações, além de outros detalhes. O projeto mais detalhado foi o OpenCog, dado que nós aqui do Labs desenvolvemos diversos módulos que o compõe atualmente. O OpenCog é um framework que tem como objetivo a criação de um sistema computacional pelo menos tão inteligente quanto um humano. Ele reúne uma série de ferramentas para planejamento de ações, raciocínio e tomada de decisão, inferência, aprendizado de máquina, etc. Ele conta também com um módulo para a representação de um agente inteligente que possui um corpo físico e está situado em um ambiente físico qualquer. Alguns vídeos de demonstração do OpenCog em ação podem ser vistos em:

Video 1) Visualização da AtomTable
Video 2) Agente aprendendo
Video 3) Respondendo perguntas
Video 4) Resolução de anáfora

Para finalizar a apresentação, foram lançadas algumas questões acerca de uma provável última criação do homem, a super-inteligência. Esta, pois, seria a última, uma vez que uma super inteligência poderia inventar qualquer coisa e/ou resolver qualquer problema que somente um humano seria capaz de fazê-lo, porém de forma mais eficiente. A criação de uma segunda, terceira,.., enésima geração de super-inteligências ficaria a cargo das super-inteligências, dado que o homem “original” e obsoleto não teria capacidade de realizar tal atividade. Uso o termo “original” para denominar o homem sem modificações, ou seja, sem implantes cibernéticos, sem nano robôs e outros recursos que venham torná-lo sobre-humano. No final das contas, a utilização da tecnologia para acelerar o lento processo evolutivo biológico não é novidade, mas será cada vez mais perceptível nas próximas décadas.

Os slides da apresentação podem ser visualizados no Slideshare.

10 Respostas
  1. Eduardo Fantini :

    Date: agosto 3, 2010 @ 7:45 am

    Samir, parabéns pelo post. Esse é um assunto que a sociedade deve refletir e debater agora, pois essa tecnologia pode e será usada para controlar a massa em breve. Espero que existam financiadores dispostos a investir na pesquisa de tecnologias benéficas à população e não apenas visando o retorno de capital.

  2. Maurício Mudado :

    Date: agosto 3, 2010 @ 8:29 am

    Muito bacana o post. Só tentando entender um pouco mais e enriquecer meu conhecimento, o que você me diz das idéias do matemático Roger Penrose de que é impossível o surgimento de uma inteligência artificial pelo fato de que é impossível (matematicamente) para as máquinas serem intuitivas? Não seria isso necessário para a criatividade e a inteligência de um modo geral?

  3. Samir Araújo :

    Date: agosto 4, 2010 @ 9:35 am

    Oi Maurício,

    você levantou uma questão muito interessante :), bastante polêmica e, na minha opinião, complicada de se discutir sem levar em consideração mais de um ponto de vista. As teorias do Penrose são muito interessantes e, IMHO, ele é um cientista brilhante. Contudo, suas teorias batem de frente com as de outros pesquisadores como Marvin Minsky e o próprio Kurzweil. Penrose não acredita que seja possível representar a consciência humana de forma algorítmica, usando computadores baseados na máquina de Turing. Ele também afirma que somente um computador quântico poderia resolver tal problema. Já Kurzweil não só defende que é possível emular a consciência humana com algoritmos, quanto acredita que a partir deste ano (2010) já teremos computadores com a capacidade de processamento e memória necessária para isto.
    Bom, agora em relação ao que *eu* acredito, concordo contigo que intuitividade é algo indispensável para se criar uma inteligência artificial. Pensando no lado prático, (nós humanos) resolvemos problemas que não conhecemos a solução de forma intuitiva, através de analogias e/ou simples métodos de força-bruta, como tentativa-e-erro.
    A criatividade, de uma forma bastante simplificada, poderia ser entendida (no contexto de criação de uma IA) como uma combinação de experiências passadas para se criar/imaginar novos cenários onde um dado problema possa ser resolvido. E mesmo em uma abordagem como tentativa-e-erro é preciso utilizar a “imaginação” (analogia, aprendizado, inferência, etc. etc.) em cada etapa para se reduzir o espaço de busca. Caso contrário, o sistema poderia entrar em loop ou simplesmente levaria um tempo inaceitável para resolver o problema em questão.
    Dessa maneira, assumindo que as características que você apontou possam ser visualizadas da maneira acima, então, acredito que seja possível sim a criação de uma inteligência artificial genérica, por exemplo, usando as teorias de Minsky (Society of Mind). Uff, daria p/ discutir este assunto por muito tempo… mas acho que é isso aí :)

  4. Maurício Mudado :

    Date: agosto 5, 2010 @ 9:59 am

    Valeu pela resposta, foi bastante construtiva! Vou dar uma olhada nos trabalhos do Minsky e do Kurzweil também. O que será que o Ben Goertzel pensa sobre o assunto? Acho que vou enviar um e-mail pra ele também em breve pra discutir isso tudo ;-)

  5. Nabil Araújo :

    Date: agosto 11, 2010 @ 12:08 pm

    Parabéns pelo texto, Samir. Você tem o mérito de tornar acessível para o público leigo o debate sobre um processo tecnológico que, sem dúvida, envolve questões altamente técnicas, mas cujos efeitos se fazem e se farão sentir por todos nós. Mesmo que a “super inteligência” prevista por Kurzweil nunca chegue a se concretizar, os avanços já registrados nesse sentido justificariam por si sós um amplo debate sobre as prováveis conseqüências culturais, sociais e políticas desse “admirável mundo novo” por você abordado. Um abraço.

  6. André de Sousa Araújo :

    Date: agosto 16, 2010 @ 6:56 pm

    Samir,

    Finalmente começo a acreditar que de alguma forma seja possível criar uma inteligência artificial. Uma inteligência de certa forma primitiva ainda, mas que se possa ser muito mais do que exaustivos testes de variáveis tentando fazer parecer inteligente. Mas ainda sou muito cético.
    E você realmente acredita que seja possível daqui a 34 anos existir um máquina inteligente nos moldes da nossa? (Faço esta pergunta, porque sei que citou Kurzweil, mas de certa forma queria saber se vc acredita)

    Eu não sei, creio que não, não consigo acreditar.

    Mas refletindo aqui (seu post ficou muito bacana) começei a pensar, fazendo mais uma daquelas analogias baratas: Praticamente nas últimas décadas, inventamos grande parte das tecnologias, a maioria delas. A ainda vamos continuar inventando muita coisa… coisas inimagináveis hoje, talvez.

    Mas ainda assim é normal que eu nege, e até muito sincero negar uma coisa que não consigo ver como. Porque alguns cientistas dizem O QUE, QUANDO e até o PORQUE certas coisas devem acontecer. Mas o COMO sempre é o mais díficil.
    Acho que o COMO ai é o meu problema, é essa parte que eu ainda não visualizar.

    E partindo da suposição que aconteça, é inteligente inventar ou construir algo que possa ser mais inteligente do nós mesmos?
    Muito louco isto! Não?
    Temos que tormar aquela cerveja!
    Abraços, velho.
    ;-)

  7. Samir Araújo :

    Date: agosto 18, 2010 @ 11:35 am

    André, a resposta p/ primeira pergunta é sim e não :) Bom, sim porque acho que 34 anos é um tempo considerável para termos uma tecnologia que permita a criação de uma Inteligência Artificial Genérica(IAG), inspirada na inteligência humana, dada a taxa da evolução tecnológica atual e projetada. Atualmente já existem algumas tecnologias capazes de imitar o comportamento humano em diversos aspectos, inclusive com níveis variados de “compreensão” dos eventos (mesmo relacionados à emoção). Mas um dos grandes “gargalos” deste tipo de sistema é a limitação na capacidade de processamento e de armazenamento de informações dos computadores. Obviamente a maioria destes projetos são acadêmicos, mas a medida que equipamentos mais poderosos se tornarem acessíveis a qualquer pessoa com um baixo custo, tais sistemas poderão sair dos super computadores das universidades e entrar nas residências das pessoas. Isso levaria as pesquisas na área a um novo patamar. Com sucessivos avanços dessa natureza, acredito então ser possível não somente a criação de super inteligências, mas também a “popularização” delas. Já o ‘não’ é porque as pessoas sempre pensam em IAGs como sendo estes robôs que vemos em filmes, livros, etc. A Singularidade marcaria o início de uma nova era e, dessa forma, a IAG que imagino (assim como a maioria dos pesquisadores da área) é justamente uma criança (e não um humano adulto versão máquina), que precisa ser educada, treinada, precisa experimentar o mundo assim como uma criança humana, etc. Esse treinamento levaria tempo, mas um dia essa criança poderia “crescer” e se tornaria sim, essa super inteligência que queremos.

    Não vou entrar na questão de se é sensato ou não criar uma inteligência mais inteligente que nós, pois isso poderia ser discutido ad eternum… mas eu arriscaria :)

  8. Cesar Cassini :

    Date: agosto 20, 2010 @ 3:00 am

    Para enriquecer a discussão, levanto a questão do futurismo/transhumanismo/singularidade (basicamente, as ideias de Kurzweil) e a discórdia entre ciência e religião. Trata-se de uma “nova religião” (como querem os críticos) ou de um novo tiop de religião ou nenhuma coisa nem outra? (uma ficção científica aplicada) Tentei explorar esta questão aqui: http://fabulosofuturo.blogspot.com/2010/08/no-futuro-havera-um-novo-tipo-de.html . Futuramente, espero divulgar o OpenCog por lá. Fica o convite à discussão. Parabéns pelo trabalho de vocês!

  9. Samir Araújo :

    Date: agosto 24, 2010 @ 2:05 pm

    Oi Cesar, a *minha* opinião sobre esse assunto é a seguinte: discordâncias entre cientistas e religiosos, como todos nós sabemos, não é novidade. Basta observarmos o passado para percebermos que tudo que é novidade e/ou desconhecido pela maioria disperta o fascínio ou aversão nas pessoas (não necessariamente fascínio para cientistas e aversão para religiosos). A religião, neste contexto específico, serve como um conforto para explicar o desconhecido. Já os cientistas preferem buscar na Ciência tais explicações. Talvez por isso a existência deste embate entre direfentes pontos de vista. Entretanto, concordo que a possibilidade de ‘estender’ a humanidade de cada indivíduo com o uso da Tecnologia teria um impacto social muito maior do que eventos do passado. Apesar dos futuristas e cientistas defenderem a possibilidade de se ter diversos níveis de *upgrade* humano, um deles é a completa independência do seu corpo físico. Isto poderia resultar até mesmo na ‘vida eterna’. Se a mente/consciência de um indivíduo passa a ‘viver’ em um sistema computacional, enquanto este sistema existir o indivíduo teoricamente ‘vive’. Hoje, tais idéias, apesar de existirem várias frentes de P&D trabalhando para torná-las realidade, são apenas fonte de alimento para escritores de ficção científica. Battlestar Galactica, Caprica e Dollhouse, são alguns bons exemplos de séries de TV que abordam questões sobre transhumanização, vida eterna, etc. alcançadas com o uso de tecnologias. As idéias por trás da Transumanisação/Singularidade são muito sedutoras. Desta forma, a expectativa gerada/propagada por determinados grupos de pessoas, sobre a possibilidade de se realizar tais feitos, pode ser exagerada. Nem todos estão preparados para algo desta natureza. A distorção da realidade por consequência destes exageros poderia sim, então, resultar em um exército de fanáticos. Em seu artigo (que por sinal é um excelente texto) você levanta a questão de que se as intenções/ideais dos pesquisadores da área já não seriam os alicerces de uma nova religião. Neste caso, a fundação da Universidade Singularidade, também mencionada em seu texto, poderia ser vista como o primeiro ‘templo’ para adoração desta religião emergente, não?. Bom, não sei. Acredito que o entendimento das pessoas sobre as coisas nada mais é do que a sua projeção (a projeção de seu conhecimento e experiências) sobre tais coisas. No final das contas, acredito que os avanços oriundos desta corrida tecnológica rumo à Singularidade serão muito benéficos à humanidade, independentemente se teremos tecnologia para transcender nossa humanidade ou não.

  10. Cesar Cassini :

    Date: agosto 27, 2010 @ 10:39 pm

    É isso aí, Samir.
    Eu vejo no movimento da singularidade um ponto de encontro entre religião e tecnociência. Um ponto instável em que, de um lado, temos que tomar cuidado para que o chamariz da religião (“vida eterna”, entidades supra humanas benéficas etc.) não oblitere o espírito crítico e investigativo que faz parte do método científico. Por outro lado, o reducionismo e a ausência de significado para a vida das pessoas a que a ciência pode conduzir. Por isso achei interessante a ideia de Kurzweil, quando fala não em uma nova religião, mas na possibilidade de novos tipos de religiões, no futuro. Enfim, blogando, a gente necessariamente simplifica muito as coisas. Mas há algo de novo nessa ideia. Mais uma vez, parabéns pela palestra, pelo post. Claro que sempre é preciso cautela, como a que você demonstrou; mas, igualmente, é preciso coragem – que você também teve.