Software livre no seu carro: “Veneno” open source

11:21 am Automação, Desenvolvimento, Inovação, Processamento de Sinais

Não preciso nem dizer que o Brasil tem tradição em automobilismo – nem que for pra lembrar das incontáveis manhãs de domingo com Fórmula 1. O que acho mais interessante é que nosso tesão por motorsports independe de suporte formal: apesar de alguns esforços heróicos não temos grandes equipes em categorias de ponta.

Mas isso nunca é problema quando se tem alguma criatividade. O extremo mais precário é um dos meus exemplos preferidos: são comuns em cidadezinhas do interior os “jericos” – carros inteiros construídos a partir de sucata, usando motores estacionários (feitos para serrarias, máquinas agrícolas pequenas, etc.). Daí para competições rústicas envolvendo esses carros, jipes e fuscas é um passo.

(Foto: Marco Antonio Teixeira)

(Foto: Marco Antônio Teixeira)

Algumas soluções técnicas pouco convencionais (gambiarras mesmo) fizeram história no automobilismo brasileiro. Em 1969, os jovens Emerson e Wilson Fittipaldi disputaram os Mil Quilômetros da Guanabara ao lado de lendas como Ford GT40 e Alfa P33, a bordo de um Fusca de 400 cavalos, vindos de dois motores acoplados por uma junta elástica de borracha!

(Foto: obvio.ind.br)

Nos anos 1970 e 1980, qualquer um que pensasse em esportivo no Brasil tinha que falar do Opala, e necessariamente do “veneno” – modificações no motor como troca de carburador, bicos injetores e comando de válvulas para deixar o motor seis cilindros do que hoje é um dos maiores clássicos brasileiros ainda mais bravo e, obviamente, divertido.

Opalão SS 9 Silver Star

(Foto: Opala Club de Bragança Paulista)

A chegada da injeção eletrônica ao Brasil com o Gol GTI, em 1989, foi o início de uma grande mudança: agora um programa de computador, sensores e atuadores eletrônicos passariam a ditar o comportamento (e o consumo) do motor, e a era do veneno clássico, dos carburadores Quadrijet e de tantos outros truques começava a terminar.

Só que a história não acaba aqui! No início dos 1990 tomava força também, no mundo todo, uma outra revolução: a do software livre e aberto. Programadores de computador, cientistas da computação, hobbyistas e entusiastas chegavam à conclusão de que o código-fonte dos programas não devia ser trancafiado a sete chaves numa catedral, mas sim compartilhado e melhorado de forma cooperativa e distribuída.

Essa cooperação e o livre fluxo de informação levava ao desenvolvimento de programas e sistemas mais robustos, seguros e eficientes. E o que isso tem a ver com carros esportivos ? A resposta é simples: já que o software domina o seu carro, domine o software e você vai conseguir um “veneno” que de virtual não tem nada!

Provavelmente o exemplo mais famoso disso é a MegaSquirt, um sistema completo de injeção eletrônica, com todos os sensores e um microprocessador de 8 ou 16 bits que controla os bicos injetores e ignição das velas, baseado em software livre. A Mega Squirt é comprada pelo correio, aos pouquinhos, montada nos mais diferentes tipos de carros, e configurada de diversas formas conforme os objetivos da preparação, na melhor tradição DIY (Do It Yourself, “faça você mesmo”):

Componentes da MegaSquirt

(Foto: Marcelo Garcia)

Para “conversar” com a MegaSquirt e fornecer uma interface para o piloto / mecânico / programador / usuário, usa-se um outro software livre, o MegaTunix, originalmente desenvolvido para o Linux e hoje disponível em diversos sistemas operacionais, incluindo o Windows.

Uma das funções mais divertidas do MegaTunix é emular os caríssimos “relógios autometer” (mostradores incluindo conta-giros, termômetros, razão ar/combustível, etc.): tudo é mostrado no monitor de um notebook ou palmtop, e o usuário pode definir exatamente qual o visual ele quer.

MegaTunix / MegaSquirt

MegaTunix rodando em notebook conectado à MegaSquirt

(Foto: Marcelo Garcia)

E é a flexibilidade do código aberto que permite que sistemas assim sejam tão interessantes. O Marcelo Garcia, que forneceu fotos e consultoria para esse artigo, dá um exemplo da liberdade a que se tem acesso: ele conta que é possível, usando bastante engenhosidade, um fogão, multímetro e outros truques, atualizar o firmware da MegaSquirt para que ela usasse sensores de temperatura de qualquer carro em qualquer motor. Uma mão na roda para quem tem carros antigos (dos quais não se encontram mais peças originais) ou exóticos (cujas peças custam uma fortuna).

Calibrando sensores de temperatura no fogão

Calibrando sensores de temperatura no fogão

(Foto: Marcelo Garcia)

É claro que há limites para o que é possível fazer com software; nem o hacker mais brilhante do mundo vai fazer seu Uninho 1.0 rodar 25 km/l ou andar junto com o Opalão seis cilindros do seu tio. Mas saber que o “veneno” feito-em-casa ainda existe apesar de todas as inovações tecnológicas das últimas décadas é muito, muito bacana – e dá um outro sentido à expressão computador de bordo!

8 Respostas
  1. muriloq » Blog Archive » Software livre no seu carro: “Veneno” open source :

    Date: setembro 19, 2008 @ 11:27 am

  2. Gustavo :

    Date: setembro 19, 2008 @ 11:45 am

    O que me faz pensar naqueles japoneses malucos cujo tesão é regular o carro ao máximo, através da centralina, para gastar o mínimo possível de combustível, tudo aliado com o indefectível estilo de direção “zen-driving”. Isso de tunar um carro, por mais tecnológico que seja, para mim é arte pura!

  3. ARNOLDO ANDERSON MULLER :

    Date: dezembro 9, 2008 @ 5:50 pm

    Minha pergunta é:

    Tem como usar os benefícios deste sistema em um carro carburador?

    o que tem disponivel nessa linha pelo menos para emular os manometros em carros carburados?

  4. Murilo Queiroz :

    Date: dezembro 10, 2008 @ 8:22 am

    Dá para colocar só os sensores, e usar o notebook apenas para mostrar informações, sem controlar nada (por exemplo, para acompanhar a leitura de sonda wideband e ver como carburador desperdiça combustível).

    Mas não vale a pena: sai mais caro que colocar medidores “de verdade” e benefício mesmo (fora o estético) não traz nenhum.

    Se você vai mexer com isso seria melhor já tirar o carburador de uma vez.

    (resposta em colaboração com Marcelo Garcia)

  5. Carlos A Casarim :

    Date: janeiro 13, 2009 @ 6:47 pm

    Olá, estou procurando onde comprar os componentes para montar uma MS, pretendo colocar num fusca 1300 original, apenas modificado para ignição do fusca itamar ou seja o distribuidor é com sensor hall.
    Qual é a versão da MS mais pratica para implantar no fusca ?

  6. shox :

    Date: janeiro 22, 2009 @ 2:58 pm

    Onde acho esses tipos de componentes? obrigado

    fred

  7. Murilo Queiroz :

    Date: janeiro 22, 2009 @ 3:22 pm

    Carlos: infelizmente não sei como responder sua pergunta sobre o Fusca.

    shox: tente aqui:

    http://loja.msbr.com.br/

    (aviso: não tenho qualquer afiliação com essa loja)

  8. KEMMER EDUARDO :

    Date: março 29, 2010 @ 11:11 am

    gostei muito sempre quiz um sistema desses
    quanto fica tudo vc sabe?