Interfaces telepáticas: quando o Mundo do Amanhã chega hoje mesmo

9:14 am Ciências cognitivas, Inovação, Memória, Usabilidade

Recentemente, surgiu aqui no Labs um anteprojeto de um projeto para talvez, quem sabe, trabalharmos com a identificação automática de fases do sono em “polissonografias”, que são dados neurofisiológicos e cardio-respiratórios coletados de pessoas dormindo. A parte neurofisiológica da coisa serviu de inspiração para eu escrever este artigo acerca das “interfaces telepáticas”, como as chamo. Alguns diriam que “interfaces neurais” talvez seja um termo melhor, mas gosto das imagens de pulp scifi que “telepáticas” evoca. :)

Aliás, o tema de interfaces capazes de ler diretamente a mente do usuário é recorrente na ficção científica. A mais antiga referência _scifi_ sobre interfaces telepáticas de que me lembro está no clássico inesquecível O Planeta Proibido. Numa das cenas desse filme de 1956, um dos personagens usa um aparelho que é capaz de ler e interpretar sua mente, inclusive mostrando as imagens em que ele está pensando. No filme, essa tecnologia é alienígena e apresentada como algo centenas de milhares de anos à frente da ciência humana – o que é bastante curioso, considerando-se que o filme se passa séculos no futuro, em uma época onde os humanos viajam pelo espaço em discos voadores antigravitacionais e cruzam anos-luz em tempos razoáveis passando pelo “hiperespaço”.

Ou seja, esse parece ser mais um dos casos muito freqüentes em que a ficção científica acerta acerca de uma previsão sobre o futuro, mas erra feio a ordem do que virará realidade primeiro. Alguns experimentos com resultados inesperados e algumas teorias exóticas até dão alguma esperança de que um dia teremos antigravidade de disco voador ou saltos hiperespaciais como no filme, mas na melhor das hipóteses isso está num futuro imprevisivelmente distante. Já as interfaces telepáticas estão bem próximas. Mais precisamente, elas já estão aqui!

Lembro de pesquisas sobre leitura e interpretação de sinais cerebrais desde os anos 90. Inicialmente, essas pesquisas visavam ajudar pessoas com deficiências físicas, possibilitando a sinais de seus cérebros “contornar” paralisias e outras condições. A pesquisa de anos atrás sobre a movimentação do ponteiro de um mouse usando a mente é emblemática dessa era. Porém, como era de se esperar, essas pesquisas começam aos poucos a ser aplicadas ao mercado muito mais vasto de consumidores em geral…

Assim, há alguns meses surgiu a demonstração de uma interface de “subvocalização” para celulares, que capta os impulsos nervosos que o cérebro envia para a garganta e interpreta as palavras sem que a pessoa tenha de efetivamente verbalizá-las – ideal para ter conversas telefônicas privadas mesmo em ambientes cheios de gente. Também apareceu recentemente, e já está disponível comercialmente, um controle telepático para videogames.

Essas aplicações envolvem análise de sinais eletroencefalográficos ou atividade de conjuntos de nervos superficiais específicos – o que certamente já rende um bom número de aplicações divertidas, como exemplificado. Porém, esse meio de aquisição de certa forma capta apenas comandos que o cérebro emite “propositalmente”. Mas a verdadeira fronteira final das interfaces telepáticas, que vai além da captação de comandos diretos do cérebro, envolve a observação direta da atividade cerebral, que potencialmente poderia levar à possibilidade de saber o que uma pessoa está realmente pensando. Uma pesquisa divulgada poucas semanas atrás por exemplo descobriu que as mesmas áreas cerebrais tendem a se ativar quando pessoas diferentes estão pensando na mesma palavra, um princípio que se bem desenvolvido poderia levar a um “leitor universal de pensamentos”. Outra aplicação relativamente recente é o detetor de mentiras com 90% de acerto. Esta última, a propósito, cai no que muitos vêem como o “lado negro” das tecnologias de telepatia artificial, já que levanta uma série de questões éticas e legais.

É claro que, ao contrário do que acontece com as interfaces “eletroencefalográficas”, que no fim das contas usam simples eletrodos, essas aplicações bem mais ousadas observam a atividade cerebral por fMRI (do Inglês para Imagem por Ressonância Magnética Funcional), ou seja, usam máquinas enormes e caras, tornando difícil imaginar uma popularização desses métodos. Porém, avanços também recentes em magnetômetros atômicos acenam com a possibilidade de máquinas de fMRI portáteis e baratas em um futuro não muito distante. Mais espantosamente, magnetômetros atômicos poderiam em tese ser sensíveis o suficiente para monitorar o magnetismo até de neurônios individuais, podendo registrar a atividade cerebral com um nível de detalhe impensável hoje em dia. Talvez, quem sabe, até o suficiente para alcançar o “upload” tão almejado pelo movimento Trans-Humanista. Mas isso já é outra viagem, que talvez um dia eu tenha coragem de encarar em um artigo futuro. :)