Criando Gênios em Laboratório

10:00 am Biotecnologia, Ciências cognitivas

Muitos já ouviram falar de pessoas com transtornos cognitivos e de desenvolvimento (como autismo) que apresentam desempenho espetacular em algumas tarefas bem específicas (como decorar a lista telefônica, desenhos com alto grau de detalhe, ou cálculos matemáticos). O termo usado nessa condição é savant, e foi retratado em filmes como Rain Man, inspirado na vida de Kim Peek (que tem memória eidética – popularmente conhecida como “fotográfica”).

Em uma das listas relacionadas ao Singularity Institute for Artificial Intelligence (temos um contato próximo: desenvolvemos projetos de IA relacionados e sou um mentor do instituto no Google Summer of Code) está sendo discutido o trabalho de Allan Snyder, um pesquisador da Universidade de Sydney, Austrália, que estuda o uso de estimulação magnética transcraniana of lobo temporal esquerdo para induzir capacidades similares às dos savant em pessoas normais.

Estimulação Magnética Transcraniana

O método é discutido nesse artigo do New York Times, de 2003. Recentemente nos Estados Unidos o canal National Geographic apresentou um documentário chamado “Accidental Genius” sobre esse tema, com experimentos em universitários voluntários.

Nesses experimentos, o desempenho de voluntários em tarefas como ler uma frase com um pequeno erro gramatical, desenhar um cavalo e estimar quantos pontos foram mostrados brevemente numa tela é primeiro avaliado. Depois disso, os voluntários são submetidos a 15 minutos de estimulação magnética transcraniana em pontos específicos do cérebro, e repetem os experimentos.

Os resultados são extremamente curiosos. O nível de detalhe dos desenhos aumenta perceptivelmente; a precisão na estimativa da contagem de pontos dobra. A capacidade de leitura, entretanto, é afetada: a frase com um pequeno erro que era lida normalmente antes do experimento agora causa dificuldade no voluntário.

O documentário pode ser assistido (em inglês) no site do National Geographic (vá no dia 7 de Maio, às 4:00 PM).

Fãs de ficção científica vão com certeza se lembrar do excelente A Deepness in the Sky, de Vernor Vinge, e dos mentats do clássico Duna, de Frank Herbert. Em ambos, pessoas comuns são treinadas e modificadas para se tornarem especialistas em uma determinada área, alcançando desempenho superior até mesmo dos computadores da ficção. Em Duna, esse desempenho é possibilitado por uma droga, sapho; no livro de Vinge, usa-se a mesma estimulação magnética transcraniana estudada por Allan Snyder.

Estarão um upgrades cognitivos disponíveis, talvez para a população em geral, talvez para casos específicos (analistas militares, financeiros, profissionais de determinadas áreas) ? Quais seriam os impactos éticos desse tipo de processo ? Serão tais medidas (bem como o uso de medicamentos supostamente capazes de aumentar o desempenho intelectual, os chamados nootrópiocos) tratadas como o doping com esteróides anabolizantes é hoje no esporte ? Perguntas interessantíssimas…

4 Respostas
  1. girino :

    Date: maio 8, 2008 @ 11:06 am

    Uma pequena dúvida: Esse efeito é temporário ou permanente? O estudo verifica se tem influencias a longo prazo?

    Que virar um “savant” por meia hora deve ser bacana, mas virar um autista que não consegue ler uma frase com errinhos bobos ia ser dureza!

  2. Murilo Queiroz :

    Date: maio 8, 2008 @ 11:29 am

    São temporários. Esse tipo de estimulação magnética é pesquisado para outros fins, também, como tratamento de esquizofrenia, depressão e Alzheimer, como explicado nesse artigo da New Scientist:

    http://www.newscientist.com/article/mg19426053.300-magnets-may-make-the-brain-grow-stronger.html

  3. Lucio Souza :

    Date: maio 8, 2008 @ 4:08 pm

    Murilo, espero que um dia apareça mais um post seu sobre o assunto e o título seja “Faça você mesmo seu estimulador magnético transcraniano”. :)

  4. muriloq :

    Date: maio 8, 2008 @ 5:51 pm

    Para falar a verdade tem mesmo gente que faz estimuladores magnéticos transcranianos em casa! Com projeto opensource e tudo… Mas eu não teria coragem de ser minha própria cobaia, não… :-)