Software livre no seu carro: “Veneno” open source

Não preciso nem dizer que o Brasil tem tradição em automobilismo – nem que for pra lembrar das incontáveis manhãs de domingo com Fórmula 1. O que acho mais interessante é que nosso tesão por motorsports independe de suporte formal: apesar de alguns esforços heróicos não temos grandes equipes em categorias de ponta.

Mas isso nunca é problema quando se tem alguma criatividade. O extremo mais precário é um dos meus exemplos preferidos: são comuns em cidadezinhas do interior os “jericos” – carros inteiros construídos a partir de sucata, usando motores estacionários (feitos para serrarias, máquinas agrícolas pequenas, etc.). Daí para competições rústicas envolvendo esses carros, jipes e fuscas é um passo.

(Foto: Marco Antonio Teixeira)

(Foto: Marco Antônio Teixeira)

Algumas soluções técnicas pouco convencionais (gambiarras mesmo) fizeram história no automobilismo brasileiro. Em 1969, os jovens Emerson e Wilson Fittipaldi disputaram os Mil Quilômetros da Guanabara ao lado de lendas como Ford GT40 e Alfa P33, a bordo de um Fusca de 400 cavalos, vindos de dois motores acoplados por uma junta elástica de borracha!

(Foto: obvio.ind.br)

Nos anos 1970 e 1980, qualquer um que pensasse em esportivo no Brasil tinha que falar do Opala, e necessariamente do “veneno” – modificações no motor como troca de carburador, bicos injetores e comando de válvulas para deixar o motor seis cilindros do que hoje é um dos maiores clássicos brasileiros ainda mais bravo e, obviamente, divertido.

Opalão SS 9 Silver Star

(Foto: Opala Club de Bragança Paulista)

A chegada da injeção eletrônica ao Brasil com o Gol GTI, em 1989, foi o início de uma grande mudança: agora um programa de computador, sensores e atuadores eletrônicos passariam a ditar o comportamento (e o consumo) do motor, e a era do veneno clássico, dos carburadores Quadrijet e de tantos outros truques começava a terminar.

Só que a história não acaba aqui! No início dos 1990 tomava força também, no mundo todo, uma outra revolução: a do software livre e aberto. Programadores de computador, cientistas da computação, hobbyistas e entusiastas chegavam à conclusão de que o código-fonte dos programas não devia ser trancafiado a sete chaves numa catedral, mas sim compartilhado e melhorado de forma cooperativa e distribuída.

Essa cooperação e o livre fluxo de informação levava ao desenvolvimento de programas e sistemas mais robustos, seguros e eficientes. E o que isso tem a ver com carros esportivos ? A resposta é simples: já que o software domina o seu carro, domine o software e você vai conseguir um “veneno” que de virtual não tem nada!

Provavelmente o exemplo mais famoso disso é a MegaSquirt, um sistema completo de injeção eletrônica, com todos os sensores e um microprocessador de 8 ou 16 bits que controla os bicos injetores e ignição das velas, baseado em software livre. A Mega Squirt é comprada pelo correio, aos pouquinhos, montada nos mais diferentes tipos de carros, e configurada de diversas formas conforme os objetivos da preparação, na melhor tradição DIY (Do It Yourself, “faça você mesmo”):

Componentes da MegaSquirt

(Foto: Marcelo Garcia)

Para “conversar” com a MegaSquirt e fornecer uma interface para o piloto / mecânico / programador / usuário, usa-se um outro software livre, o MegaTunix, originalmente desenvolvido para o Linux e hoje disponível em diversos sistemas operacionais, incluindo o Windows.

Uma das funções mais divertidas do MegaTunix é emular os caríssimos “relógios autometer” (mostradores incluindo conta-giros, termômetros, razão ar/combustível, etc.): tudo é mostrado no monitor de um notebook ou palmtop, e o usuário pode definir exatamente qual o visual ele quer.

MegaTunix / MegaSquirt

MegaTunix rodando em notebook conectado à MegaSquirt

(Foto: Marcelo Garcia)

E é a flexibilidade do código aberto que permite que sistemas assim sejam tão interessantes. O Marcelo Garcia, que forneceu fotos e consultoria para esse artigo, dá um exemplo da liberdade a que se tem acesso: ele conta que é possível, usando bastante engenhosidade, um fogão, multímetro e outros truques, atualizar o firmware da MegaSquirt para que ela usasse sensores de temperatura de qualquer carro em qualquer motor. Uma mão na roda para quem tem carros antigos (dos quais não se encontram mais peças originais) ou exóticos (cujas peças custam uma fortuna).

Calibrando sensores de temperatura no fogão

Calibrando sensores de temperatura no fogão

(Foto: Marcelo Garcia)

É claro que há limites para o que é possível fazer com software; nem o hacker mais brilhante do mundo vai fazer seu Uninho 1.0 rodar 25 km/l ou andar junto com o Opalão seis cilindros do seu tio. Mas saber que o “veneno” feito-em-casa ainda existe apesar de todas as inovações tecnológicas das últimas décadas é muito, muito bacana – e dá um outro sentido à expressão computador de bordo!

Automação, Desenvolvimento, Inovação, Processamento de Sinais 8 Comentários

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Onde call-centers jamais estiveram…

A ídeia para esse post surgiu de um trecho do livro O Mundo é Plano, escrito por Thomas L. Friedman. O livro eu ainda não terminei de ler mas, além da leitura agradável, já me forneceu este post. A ele então.

Lanchonetes drive-thru ainda são raras no Brasil, encontradas quase que unicamente em capitais e e possivelmente em grandes cidades do interior paulista, mas já estão no imaginário popular graças aos filmes adolescentes da Sessão da Tarde. Dai que veio minha surpresa ao ler sobre Shannon Davis, e suas franquias drive-thru do Mc Donald’s.

Localizadas no estado do Missouri (EUA), o atendimento dos clientes nestas lojas é realizado por funcionários que se encontram em um call-center no estado do Colorado a mais de 1400 quilômetros de distância. O pessoal da cozinha, por motivos óbvios, ainda trabalha no local ;-) .

O sistema utilizado permite aos atendentes conversarem com os clientes em outro estado, tirarem uma foto digital destes, apresentarem o pedido para conferência e depois enviar o pedido, com a foto do cliente, para o pessoal da cozinha. Um detalhe interessante de segurança, as fotos são apagadas assim que os pedidos são entregues.

Resultado da inovação: menores custos, atendimento mais rápido e e com menos erros, ou seja, ganho para o dono do estabelecimento e para os consumidores. Além disso, este é o primeiro uso inteligente de um call-center que eu tenho notícia. Ou será que tem alguém que fica feliz ao ter que utilizar estes serviços da maneira que são comumente utilizados no Brasil?

Outras pequenas historias de inovacões e usos de tecnologia são apresentadas no livro e pretendo selecionar mais algumas para apresentá-las aqui. Até a próxima então.

Automação, Inovação, Negócios 1 Comentário

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Automação residencial – 3/3

Concluindo o post sobre automação residencial, vou falar um pouco sobre os demais subsistemas que citei no artigo original.

Controle de iluminação

Tradicionalmenete a maioria dos projetos de automação residencial começam por esse sistema. Você pode entendê-lo como uma parte do sistema de controle de eletricidade mas resolvi deixá-lo separado para acrescentar algumas coisinhas legais que se pode fazer aqui:

  • O uso de RFID permite um controle muito acurado dos locais da casa que precisam estar iluminados em um dado instante de tempo. Se cada morador usa, por exemplo, uma pulseira com um tag RFID o sistema pode usar antenas estrategicamente colocadas para ir acendendo ou apagando lâmpadas conforme necessário. Isso proporciona uma economia de energia muito grande principalmente se você integrar o HVAC ao mesmo mecanismo de controle).
  • Painéis centralizadores para monitorar/atuar em todo o sistema de iluminação também podem ser bem úteis. Por exemplo, na hora de dormir, o usuário pode ir ao painel e ligar/desligar as luzes conforme seu desejo ao invés de ir fazendo uma peregrinação pela casa e áreas externas para verificar se tudo está como ele quer.
  • Integrado ao sistema de monitoramento patrimonial, o sistema de iluminação pode ser uma ferramenta bastante eficaz na defesa da casa. Seja iluminando automaticamente áreas onde foram detectadas violação, seja fazendo simulação de presença no imóvel quando todos estão fora.

Detecção e combate a incêndios

Há no mercado uma infinidade de sensores capazes de detectar diversos tipos de situação de perigo (fumaça, emissão de gases, temperatura elevada, chamas etc). Uma integração desses sensores com um bom sistema de alarmes pode ser a diferença entre um simples incômodo e uma catástrofe. Além dos tradicionais alarmes visuais e auditivos, o sistema pode ser programado para entrar em contado com brigadas de incêndio ou com o corpo de bombeiros. Ou soluções intermediárias como enviar SMS, e-mail ou ligações telefônicas com mensagens previamente gravadas.

Os atuadores também são figurinhas repetidas no mercado. Sistemas de esguichos de água ou pó químico podem ser facilmente integrados e monitorados se estiverem em perfeita integração com os demais sistemas da casa (controle de fluidos, vigilância, elétrico etc).

Sistemas de vigilância e segurança patrimonial

Esse é talvez o sistema mais popular hoje quando se fala em automação residencial. Muita gente já tem um sistema de vigilância sofisticado, integrado à rede da casa e à internet que permite monitoramento remoto via WEB. Na verdade não há o que inventar aqui. Tais sistemas podem simplesmente ser integrados aos demais sistemas da casa. Talvez o maior ganho seja integrar os mecanismos de alarme e interface com o mundo externo usados pelos outros sistemas (e-mail, SMS, chamadas gravadas etc).

Outra coisa interessante é integrar o sistema de vigilância aos canais de distribuição de vídeo da casa. Isso permite tratar as imagens do sistema como qualquer outro tipo de vídeo, chaveando o aparelho para onde será transmidido, permitindo o arquivamento digital, permitindo a distribuição para mais de um ponto da casa etc.

Controle de acesso

Os mecanismos de controle de acesso evoluiram muito nos últimos anos. Há no mercado soluções de todas as faixas de preço e com propriedades variadas. O mais simples continua sendo o tradicional interfone (com ou sem vídeo). Bastante seguro, principalmente se for integrado a múltiplas câmeras e sistema de iluminação adequado. A principal desvantagem é a usabilidade: você precisa esperar que alguém de dentro da casa atenda, te identifique e abra a porta. Na verdade essa espera pode não ser apenas um problema de desconforto: em muitos casos essa espera pode ser uma falha de segurança, por expor o usuário desnecessariamente a uma possível abordagem por um bandido exatamente na hora em que ele quer entrar na casa (tenho uma amiga que foi assaltada exatamente nessas circunstâncias).

Para evitar essa espera há alternativas que vão desde soluções mais baratas (cartões com código de barra, ópticos ou magnéticos, smart cards, bótons etc) até soluções mais dispendiosas como reconhecimento de digital, íris, retina e face.

Os mecanismos baseados em “tokens” (cartoes, bótons etc) tem a desvantagem de serem fraudáveis com mais facilidade. Já os sistemas de biometria não podem ser fraudados facilmente. Desses, o mais eficaz em termos de taxa de acerto (e também o mais caro) é o reconhecimento de íris e retina. O reconhecimento de digital, embora sua utilização esteja em franca expansão no mercado, é muito suscetível a erro. Condições de oleosidade adversa nos seus dedos podem fazer com que o sistema te deixe dormir do lado de fora se você estiver “naquele dia”. Mas o sistema mais interessante na minha opinião é o baseado em reconhecimento de face. Ele tem várias vantagens:

  • Não ser intrusivo: você não precisa pôr seu olho ou seu dedo em um aparelho. Simplesmente ande em direção à porta normalmente e ele faz o trabalho de pegar sua imagem na câmera previamente colocada para isso e te identificar.
  • O sistema possibilita um esquema de auditoria muito bom. Você tem as fotos dos rostos de todas as pessoas que fizeram uso do acesso controlado. Isso pode ser usado de diversas maneiras úteis, por exemplo, voce pode receber em seu celular a foto de qualquer pessoa que esteja entrando em sua casa.
  • O sistema tem um efeito inibidor mais eficaz sobre pessoas mal intencionadas. Sabendo que seu rosto está sendo filmado, um engraçadinho se sentirá menos disposto a tentar burlar/danificar a porta, portão ou outro dispositivo de bloqueio do acesso.

O Labs desenvolveu uma solução completa de controle de acesso via reconhecimento de face. Eu trabalhei diretamente no projeto e talvez seja por isso que tenha minha preferência biased para essa opção ;-).

Serviços de telefonia

Integrar sua rede doméstica com um sistema de telefonia digital traz uma série de benefícios:

  • Extrema facilidade para fazer auditoria nas ligações.
  • Auditoria na qualidade/aferição de uso por parte das operadoras.
  • Maior facilidade de interface com os mecanismos de monitoramento remoto.
  • Maior facilidade com as interfaces de alarme.
  • Chaveamento apropriado para os diversos cômodos da casa.
  • Facilidade para realização de tele-conferências

Distribuição de áudio e vídeo

Muita gente hoje tem os chamados “media centers”. Computadores ou vídeo-games com capacidade de armazenamento e decodificação de aúdio e vídeo (em diversos formatos) integrados a canais de distribuição para os diversos cômodos da casa. Se bem implementado, esse sistema permite um grande conforto na distribuição de áudio e vídeo pela casa. A grande dificuldade está em fazer com que a interface seja simples, intuitiva e eficaz, não para um nerd analista de sistemas, mas para usuários leigos (sua mãe ou sua irmã que faz direito e ODEIA computadores ;-)).

Um pouco mais do mesmo

Além das menções explícitas às integrações entre os sistemas comentados acima há inúmeras outras maneiras de se integrá-los de forma a extrair o máximo de usabilidade do seu sistema como um todo. Como eu disse anteriormente, pensar nessa integração é um dos grandes desafios da domótica. É através da sinergia entre os sistemas que o usuário vai sentir os maiores e mais relevantes benefícios de um sistema de automação residencial. Se você estiver pensando em projetar um sistema desses (ou contratar alguém para projetar), não cometa o erro comum de implementar um sistema de cada vez, se preocupando com a integração na medida que cada sistema é implementado. Projete pelo caminho inverso. Pense em uma arquitetura que vá comportar tudo que o mercado tem disponível e vá implementando sistema a sistema depois. E não se esqueça de me convidar para um churrasco em sua casa quando tudo estiver “no ar” :-).

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Automação residencial – 2/3

Continuando o post sobre automação residencial, vou falar um pouco sobre cada subsistema que citei no artigo original.

Sistemas de abastecimento e controle de fluidos e detritos

O básico é o controle e distribuição de água potável e GLP. Sensores, válvulas e bombas permitem monitorar e manipular os dois subsistemas de maneira bem eficaz. Tarefas como as seguintes podem ser facilmente implementadas:

  • Controlar o nível de água na(s) caixa(s) d’água(s), emitindo alarmes em caso de pouca água e/ou acionando bombas ligadas a reservatório(s) subterrâneos.
  • Chavear entre o uso de água “da rua” e água “da caixa” em áreas externas da casa.
  • Controlar a quantidade de GLP disponível (no caso de GLP envasado) e emitir alarme em caso de necessidade e/ou fazer o pedido. diretamente junto à distribuidora.
  • Controle do nível de água quente.
  • Auditoria de consumo de água e GLP.
  • Temporização de sistemas de irrigação (hortas, por exemplo).
  • Chaveamento do uso de água potável ou pluvial coletada em caixas especiais.
  • Alarmes em caso de vazamentos de GLP e/ou água, inclusive com identificação do local onde foi detectado o vazamento.

Além dessas, o sistema pode ser responsável por monitorar/controlar os mecanismos de tratamento de esgoto normalmente presentes na casa (caixas de diluição, caixas de gordura etc). Monitorar fossas assépticas é uma feature particularmente útil que pode evitar grandes transtornos. Residências mais sofisticadas podem ainda ter sistemas de reciclagem de esgoto e detritos orgânicos captando o metano gerado por esse tipo de material e armazenando para uso futuro em sistemas de aquecimento. Outro sistema pouco usual no Brasil mas que é bastante difundido na Europa e nos EUA é o sistema central de aspiração de pó. Basicamente é uma bomba de vácuo potente ligada a uma rede de encanamento com saída em todos os cômodos da casa que se deseja aspirar. A pessoa responsável pela limpeza só precisa conectar uma mangueira à saída em um cômodo e ligar o sistema para que o pó seja sugado para o coletor central.

Sistemas de gerenciamento de energia elétrica

Esses sistemas já são bastante populares em grandes consumidores de energia elétrica mas poucas residências os possuem. Basicamente permitem:

  • Auditoria do consumo de energia.
  • Economia no consumo de energia através do controle adequado de iluminação (acender e apagar determinadas lâmpadas em sistuações específicas).
  • Monitoramento e alarme em caso de sobrecarga de utilização de circuitos, evitando desarmes desnecessários e potencialmente até mesmo incêndios.
  • Proteção eletrônica dos circuitos contra variações de tensão e corrente e contra sobrecargas devido a queda de raios.
  • Chaveamento para sistemas de reserva/emergência. Eventualmente geradores a diesel ou mesmo circuitos de iluminação de emergência ligados a baterias recarregáveis.

Sistemas de aquecimento, ventilação e ar-condicionado

Esse é um típico sistema para o qual se encontra no mercado equipamentos com interface padronizada e bastante amigável. Conhecidos no mercado como sistemas HVAC (Heating, Ventilation and Air Conditioning), são responsáveis pela climatização dos ambientes. O mais tradicional são os aparelhos de ar-condicionado tipo “split”, com o compressor/condensador separado do ventilador. Versões com aquecedores são também bastante comuns mas o aquecimento pode ser delegado a outros tipos de dispositivos (serpentinas de água ou vapor quente em paredes, chão ou espostas, como é bastante comum nos EUA). No segundo caso, a integração com os sistemas de aquecimento de água (elétrico ou a gás) é essencial.

A cara “high tech” vem quando esses sistemas são integrados a persianas para controle de luminosidade e ventilação natural. Em regiões muito frias, por exemplo, o controle da ventilação natural é essencial para um controle eficaz (em termos de qualidade e em termos de consumo de energia) de temperatura. Tais persianas vêm com atuadores na forma de pequenos motores silenciosos que abrem ou fecham placas de metal com o objetivo de vedar/deixar passar luz e vento

Redes de computadores

Acho até que eu poderia “pular” esse item. :-) Mas vale a pena ressaltar algumas coisas:

  • Conectividade: a rede tem de estar disponivel 24/7 em qualquer lugar da casa. Roteadores wireless são muito bem vindos mas não se deve contar apenas com eles. Muitos equipamentos vêm com interfaces ethernet padrão, então é importante cabear toda a casa.
  • O acesso à internet tem de ser de boa qualidade (confiabilidade e banda) para que os sistemas de monitoramento remoto e eventuais interfaces diretas com fornecedores (GLP, por exemplo) possam ser confiáveis.
  • Se o usuário quiser monitorar seu sistema remotamente e/ou ter a possibilidade de atuar a distância, é preciso se preocupar com sistemas de segurança digital mais sofisticados. Definitivamente o usuário não ia querer ver as imagens de suas câmeras de segurança sendo distribuidas na internet e menos ainda ter seu banho frustrado por um hacker que conseguiu acesso a seu sistema de controle de temperatura da água e resolveu cortar o fornecimento de água quente para os banheiros :-).
  • Todos os elementos de monitoração e atuação devem estar acessíveis via rede. Isso é essencial para permitir a integração no nível requerido pela domótica.
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Automação residencial – 1/3

Fiquei devendo um post sobre domótica e computação pervasiva. Eu li um livro sobre o assunto que peca por ser muito superficial mas tem a vantagem de sumarizar amplamente a maioria dos conceitos envolvidos com automação residencial e redes domésticas de uma forma geral. Trata-se de “Residências Inteligentes“, de Caio Augustos Morais Balzoni. Aliás, “Computação Pervasiva” é um neologismo técnico medonho. A expressão se refere a sistemas de computação que “permeiam” o dia-a-dia da pessoa na medida em que ela realiza suas tarefas cotidianas, informando, auxiliando e dando suporte sempre que possível.

Na minha opinião, o grande erro dos textos sobre automação residencial é encarar esse tipo de automação como uma extensão ou um caso particular de automação industrial. Um caso típico de preguiça intelectual, onde os autores se valem de toda a estrutura didática já existente para explicar um conceito e fazem apenas os “ajustes” para explicar outro. Nem mesmo o nome “automação” é adequado para a área, uma vez que o que o pretenso usuário busca com sistemas dessa natureza não é automatizar tarefas repetitivas mas melhorar sua experiência de vida na própria casa. Claro que automatizar tarefas não é nada mal, mas isso é apenas um dos meios possíveis para se alcançar o objetivo de um sistema doméstico dessa natureza: promover o bem-estar das pessoas que vivem na casa.

No contexto de uma casa, há muitas maneiras de se tirar proveito de um equipamento eletrônico ou de um software para melhorar a qualidade de vida de seus habitantes. Alguns exemplos:

  • Sistemas de abastecimento e controle de fluidos e detritos (água, gás, esgoto, aspirador etc)
  • Sistemas de gerenciamento de energia elétrica
  • Sistemas de aquecimento, ventilação e ar-condicionado
  • Redes de computadores
  • Controle de iluminação
  • Detecção e combate a incêndios
  • Sistemas de vigilância e segurança (patrimonial)
  • Controle de acesso
  • Serviços de telefonia
  • Distribuição de áudio e vídeo

Para cada um dos pontos acima existe no mercado uma série de sensores, atuadores e outros tipos de equipamentos (assim como softwares de controle) que podem ajudar a “automatizar” os processos de maneira bem eficaz. Se você procurar um bom texto sobre automação residencial, vai encontrar sugestões sobre como implementar cada um desses sistemas com nomes e especificação de sensores e atuadores, os protocolos que cada um fala, limitações de projeto etc etc etc. Mas o grande desafio para se projetar uma casa inteligente não é isso. O grande desafio é responder a essas duas questões:

  1. Qual é o diferencial, em termos de bem-estar, que cada “feature inteligente” da casa traz para os moradores?
  2. Como eu posso integrar todos os sub-sistemas que dão suporte a essas “features inteligentes” de maneira que a casa possa ser usada por seus moradores de maneira agradável e prazerosa, como se fosse um grande organismo capaz de falar sobre si mesma e de prover serviços diversos para o entretenimento e bem-estar dos moradores?

Se você negligenciar quaisquer dessas duas questões não terá um projeto de “casa inteligente” no sentido estudado pela domótica. Terá, no máximo, uma casa high tech bem espertinha capaz de “impressionar as garotas” mas toda a parafernália eletrônica vai acabar se comportando como um exército que é muito bem equipado mas que não tem uma hierarquia de comando.

Claro que a resposta a essas questões passa por conceitos que nada ou pouco têm a ver com computação, mas um projeto bem estruturado é um bom ponto de partida:

  1. A maioria dos equipamentos de automação industrial têm alguma interface de comunicação (ethernet, serial etc) mas, infelizmente, não existe padronização nos protocolos de monitoração e controle. O primeiro passo, portanto, é criar um protocolo de comunicação padronizado com drivers para cada tipo de equipamento.
  2. Considerando tal protocolo comum é possível trabalhar em uma arquitetura que seja técnica e comercialmente viável e que, principalmente, atenda perfeitamente a todos os requisitos não funcionais de usabilidade, tempo de resposta etc. Claro que os requisitos funcionais são importantes (se voce pede ao sistema para tocar uma música, você não quer que ele entre errado num “if” e acabe te preparando um café espresso) mas nesse tipo de sistema, o verdadeiro desafio são os requisitos não funcionais.
  3. Usabilidade. Sem interfaces fáceis e intuitivas o mais sofisticado dos sistemas de IA seria praticamente inútil no contexto do uso doméstico. Planeje com muito cuidado cada tipo de interface do sistema.
  4. Parta para a ação procurando componentes que tenham interfaces de controle mais simples ou padronizadas. Subsistemas com vários componentes que falam um mesmo protocolo também facilitam o trabalho.

Com relação a cada subsistema, o mercado oferece muita coisa para automação residencial (uma boa parte dos equipamentos são, inclusive, herdados da automação industrial). Nos próximos dois posts eu trarei mais detalhes sobre cada um. É só aguardar para conferir :-)

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Computação pervasiva e casas que pensam

Tenho visto nas livrarias uma verdadeira inundação de livros editados ou re-editados na esteira do sucesso de Dan Brown. A excelente idéia de misturar fatos históricos com ciência e ficção de uma maneira sutil e homogênea, quando feita seguindo uma proporção mágica que apenas os bons autores conseguem inferir, pode realmente resultar em livros divertidos, leves e muito gostosos de se ler. Claro que isso é mais ou menos como cozinhar: os mesmos temperos misturados em proporções diferentes geram resultados em um amplo espectro que vai do sofrível ao meu-Deus-isso-é-uma-perdição!

Li há pouco tempo um livro que alguns amigos meus classificariam como “honesto”. O estilo da autora é meio vamos-no-trivial-pra-não-errar mas o pano de fundo é bem interessante. “A Origem Perdida” da Matilda Asensi, fala sobre línguas antigas das tribos indígenas sul-americanas com personagens ultra-modernos que desfiam um número impressionante de termos, gadgets e até mesmo gírias do obscuro mundo dos computeiros de profissão.

Eu me lembrei desse livro quando li o excelente post do Fabrício sobre Computação Ciente de Contexto . No livro um dos personagens tem uma casa espetacular com um computador de última geração que funciona ao mesmo tempo como secretária, governanta, conselheira e psicóloga. Tudo no feminino porque o tal personagem foi quem supostamente escreveu o software que roda na tal máquina e ele teve o compreensível e louvável bom-senso de colocar características femininas nas “interfaces” do sistema (o nome pelo qual ele se o chama, a voz no sintetizador, o “rosto” digital que aparece na tela etc.).

A casa é toda controlada por esse software de IA. Desde persianas nas portas e janelas até o sistema de aquecimento central, passando por streams de aúdio e vídeo direcionados a diversos canais disponíveis na casa e comandados por voz (não comandos “secos”, mas interpretação de linguagem natural). O tal sistema chegava ao ponto de “fritar o ovo”, dando ordens em linguagem natural a empregados domésticos (cozinheiras, copeiros etc) minutos antes de acordar o dono da casa para que seu café-da-manhã estivesse pronto e quentinho na hora certa em sua cama. Realmente invejável… O cara tinha toda a casa às suas ordens, mandava e desmandava o tempo todo, falava mais grosso para ressaltar prioridades, xingava horrores para dar feedbacks negativos que eram sempre humildemente ouvidos pelo sistema, que agradecia pela oportunidade de aprender com os próprios erros. Tudo isso sem sofrer o desgaste psicológico por estar sendo escroto com os empregados! (Opa… tem gente que me falaria que isso é um ponto negativo :-)).

Claro que a autora foi coerente e esse personagem sofre no livro porque não consegue arrumar mulher! :-)

Mas o que achei bacana é que tirando a parte do cérebro de IA que dava conselhos e interpretava/gerava linguagem natural, pouco há de ficção nessa casa inteligente. De fato, hoje temos um conjunto de sensores e atuadores (grande parte deles adaptados da automação industrial) que se usados em conjunto com técnicas apropriadas de computação ciente de contexto em uma arquitetura bem planejada podem perfeitamente compor um sistema residencial “inteligente”, ou pelo menos inteligente o suficiente para impressionar até mesmo um computeiro experimentado.

Eu acabei de ler um livro sobre casas inteligentes e vou postar em breve mais informações sobre isso. Na verdade minha intenção inicial era já colocar tais informações neste post mas acabou que falei pelos cotovelos e o texto já está bem grandinho, então fica para a próxima.

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