Tatem e Trendzz na final do Desafio Brasil 2010

Na semana passada participamos – com duas empresas diferentes! – da final nacional do Desafio Brasil 2010.  Foi uma experiência tão rica, divertida e interessante que eu não poderia deixar de comentar a respeito!

O Desafio Brasil 2010 é uma competição de start-ups (empresas em estágios iniciais de desenvolvimento) de base tecnológica, que é promovida desde 2006 pelo GVcepe (Centro de Estudos em Private Equity e Venture Capital da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo). O Desafio tem o apoio de diversos parceiros, dentre eles a Intel e (a partir desse ano) a Microsoft, e em sua edição mais recente também realizou finais regionais em 8 cidades brasileiras, incluindo Belo Horizonte.

Das mais de 160 empresas inscritas, 24 delas foram selecionadas para a final nacional. As 8 empresas selecionadas no primeiro dia do evento disputam, no dia seguinte, as 4 vagas para a final latino-americana do Desafio Intel, e os vencedores vão para os Estados Unidos participar do IBTEC (Intel+UC Berkeley Technology Entrepeneurship Challenge).

Além da competição propriamente dita o Desafio é uma oportunidade espetacular para networking e para ser visto e avaliado por investidores e outros players importantes da indústria de private equity e venture capital do Brasil, incluindo, é claro, os chamados investidores anjos. O simples fato de poder apresentar sua empresa incipiente a profissionais com grande relevância e experiência e receber deles feedback (ou, como se brincou muito durante o evento, “consultoria grátis”) já é razão mais do que suficiente para querer participar!

Entramos com duas start-ups, a Trendzz e a Tatem, ambas derivadas da nossa experiência de vários anos em suas respectivas áreas e sob os auspícios da fábrica de inovação Igenesis, a nova iniciativa do Vetta Labs.

Murilo Queiroz (esq) e Cassio Pennachin (dir) em seus stands da Trendzz e Tatem

Murilo Queiroz (esq) e Cassio Pennachin (dir) em seus stands da Trendzz e Tatem

A Trendzz é uma plataforma para monitoramento e análise da web e mídias sociais que “entende português”: por meio de técnicas sofisticadas de processamento de linguagem natural fornecemos mineração de opinião e análise de sentimento com alta precisão (aferida por uma avaliação científica rigorosa), extração inteligente de tópicos, palavras-chave e entidades (tais como pessoas, locais, organizações) e outras formas de análise de notícias e comentários. A Trendzz oferece uma aplicação corporativa com interface web e também a assinatura de uma interface de programação (API) que permite que sua tecnologia seja utilizada por outros sites e aplicações.

Já a Tatem é o nosso conjunto de soluções para o mercado financeiro, especificamente para a administração de carteiras e fundos de investimento, tanto nacionais quanto off-shore. Os produtos da Tatem surgiram de uma parceria estratégica com a Gávea Investimentos, gestora de um dos maiores fundos de investimento do Brasil, e compõem uma plataforma integrada que cobre vários aspectos da gestão das carteiras, incluindo risco, compliance e inteligência.

Tatem e Trendzz ganharam o primeiro e segundo lugares de suas respectivas bancas (houve duas) na eliminatória regional em Belo Horizonte. Também foram para a final nossos grandes amigos do Anuncie Lá, que oferecem uma plataforma de anúncios para redes sociais como Orkut e Facebook – você anuncia para seus amigos e conhecidos.

Paulo Moura Jr. no stand da Anuncie Lá

Paulo Moura Jr. em seu stand da Anuncie Lá

Aliás, a qualidade das start-ups mineiras foi muito comentada durante o Desafio – diversas pessoas incluindo jornalistas e investidores me perguntaram a respeito dessa “efervescência” que viam em Minas Gerais. Respondi mencionando, dentre outros fatores, o excelente trabalho da Aceleradora, uma iniciativa para preencher o gap que existe entre o “paradigma tecnológico” dos empreendedores e o “paradigma financista” dos investidores: uma empresa não é feita apenas com tecnologia, e sem um business plan coerente não há como uma idéia inovadora sair do lugar. Muitos participantes do Desafio disseram, tanto para mim quanto para as suas bancas, que a maior dificuldade deles é administração, marketing e vendas, não tecnologia, e o trabalho da Aceleradora já ajudou muitas start-ups mineiras a se aprimorarem nesses aspectos.

Os dois dias do evento começaram com o demo pit, uma feira aberta ao público onde cada empresa demonstrava seus produtos aos visitantes, investidores e avaliadores. O demo pit também servia para as start-ups conhecerem umas às outras, e a troca de idéias, contatos e conversas informais sobre interesses em comum deram um clima descontraído e muito empolgante para o Desafio – mais do que apenas networking posso dizer que fiz algumas boas amizades por lá!

Cassio Pennachin (dir), da Tatem, visitando a Ningo, uma solução para pesquisar, comparar e comprar produtos de diferentes lojas.

Cassio Pennachin (dir), da Tatem, visitando a Ningo, uma solução para pesquisar, comparar e comprar produtos de diferentes lojas.

Na parte da tarde ocorriam as avaliações, com apresentações de 12 minutos seguidas por uma sessão de perguntas e respostas de quinze minutos para a banca de avaliadores, composta por investidores e profissionais experientes. Fiquei positivamente impressionado com a qualidade de várias apresentações, que incluíam a de empresas que não eram da área de tecnologia de informação, como a startup de biotecnologia ProBio (que desenvolveu um gel para remineralização óssea capaz de simplificar muito os implantes dentários, dentre outras aplicações). Eu estava preocupado com a minha apresentação – fico bem mais à vontade falando de tecnologia do que de business – mas consegui dar um bom ritmo e fui bastante elogiado.

Ao final do primeiro dia foram anunciados os 8 finalistas que iriam reapresentar no dia seguinte, dessa vez em inglês e para uma outra banca de avaliação. A Tatem foi uma das aprovadas para a final, mas a Trendzz ficou de fora, por uma boa razão: as duas empresas da sua banca que foram aprovadas terminaram em primeiro e segundo lugares do Desafio, colocação aliás merecidíssima.

Na apresentação em inglês dos 8 finalistas achei particularmente interessante como foram aprovados tanto empresas muito maduras, com planos de negócio bem-definidos e propriedade intelectual consolidada, e também start-ups com produtos promissores mas em estágios mais iniciais (como por exemplo os estudantes baianos da Tesla, que apresentaram uma impressora braille de baixo custo). Essa diferença no nível de maturidade das start-ups se refletia também na qualidade das apresentações; infelizmente o baixo domínio do inglês, aliado à fatores como ansiedade, prejudicou muito pelo menos um candidato. Em contraste, algumas apresentações, como a do quarto lugar Pligus e a da Tatem (feita pelo Cassio Pennachin, do Vetta Labs / IGenesis), chamaram a atenção pela fluência e desenvoltura.

Durante todo o Desafio todos os organizadores faziam questão de ressaltar que o resultado da competição propriamente dita não deveria ser encarado com muita rigidez: mencionou-se várias vezes que muitas empresas que participaram do Desafio nos anos anteriores receberam investimentos mesmo não tendo vencido a competição (como por exemplo os participantes de 2009 Navegg e Descomplica), e que a exposição e a expansão do networking eram tão ou mais importantes que a colocação em si. Ainda assim, competição é competição, e no final do evento todos estavam ansiosos pela divulgação dos vencedores, que foram:

Motofog, dos vencedores da Fumajet, em funcionamento

Motofog, da vencedora Fumajet, em funcionamento

  1. Fumajet, com o Motofog, um produto que se tornou a sensação do evento. Após assistir à apresentação (estavam na minha banca, no primeiro dia) eu fiquei tão impressionado que fui conversar com o time e dizer que tinha certeza de que o primeiro lugar era deles! Eles desenvolveram um kit para instalação em motos de 125 cilindradas (dessas comuns que se vê em todo lugar) que substitui o escapamento da moto por um sistema computadorizado para termonebulização de produtos para o combate aos mosquitos que transmitem doenças como a dengue e a malária. A moto se transforma numa alternativa de baixíssimo custo para o combate a essas doenças, capaz de circular em locais onde não é possível chegar com a caminhonete normalmente usada para esse fim (o chamado “carro fumacê”), e com um alcance e segurança muito maiores que o de um aplicador a pé. Além disso a moto pode ser utilizada sem modificações para a aplicação de defensivos agrícolas, tendo como foco os microagricultores.
  2. Vorsprung, com uma interessantíssima solução para a coleta e reutilização de água de chuva, que inclui uma CPU capaz de avaliar em tempo real a qualidade da água coletada e descartar a água contaminada por poluição e outras impurezas do início da chuva. Isso faz com que seja muito mais fácil o tratamento e o reuso da água limpa coletada após essa primeira descarga, trazendo uma grande economia especialmente para instalações industriais.  Fiquei muito feliz com a vitória dos extremamente simpáticos Pablo Garcia e Ricardo Joaquim, com quem passei várias horas conversando de diversos assuntos, indo de preparação de dragsters a videogames para auxiliar a reabilitação com fisioterapia!
  3. Taw Itech, que desenvolveu uma “lousa digital” para escolas e universidades, que se destaca pelo grande porte e inovações em usabilidade, e cujo principal componente é uma caneta eletrônica desenvolvida pela empresa. Um dos comentários dos avaliadores foi que a ausência de um vídeo demonstrando o uso da lousa na prática dificultou a compreensão do funcionamento, vantagens e inovações do produto, observação com a qual tenho que concordar.
  4. Pligus, um produto para videoconferência e colaboração on-line, já usado por diversas empresas, escolas e pessoas do mundo todo. A Pligus foi a única empresa voltada para a Internet dentre as quatro que seguem para a próxima etapa do Desafio, e me chamou a atenção pela apresentação fluida e pelo fato de tudo ter sido por um único desenvolvedor, Gustavo Scanferla, aluno de comunicação e marketing e que partiu de uma idéia que teve aos 17 anos.

A nossa Tatem, de que já falei antes, ficou em um excelente quinto lugar, e já se prepara para uma nova fase com a entrada de dois novos sócios, executivos experientes atuando no mercado financeiro.

A participação da Trendzz resultou em várias manifestações de interesse de executivos da área de marketing digital e de um investidor anjo, e elogios suficientes para me deixar empolgadíssimo com o empreendedorismo e a inovação no Brasil.

A todos que participaram do evento e da sua organização, em especial aos organizadores Rafael Matioli e Márcio Filho, da FGV, ao Yuri Gitahy e Jacques Chicourel, mentores da Aceleradora, e Diego Gomes, do ReadWriteWeb Brasil meus sinceros agradecimentos e meus parabéns!

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