Software livre no seu carro: “Veneno” open source
Não preciso nem dizer que o Brasil tem tradição em automobilismo - nem que for pra lembrar das incontáveis manhãs de domingo com Fórmula 1. O que acho mais interessante é que nosso tesão por motorsports independe de suporte formal: apesar de alguns esforços heróicos não temos grandes equipes em categorias de ponta.
Mas isso nunca é problema quando se tem alguma criatividade. O extremo mais precário é um dos meus exemplos preferidos: são comuns em cidadezinhas do interior os “jericos” - carros inteiros construídos a partir de sucata, usando motores estacionários (feitos para serrarias, máquinas agrícolas pequenas, etc.). Daí para competições rústicas envolvendo esses carros, jipes e fuscas é um passo.
(Foto: Marco Antônio Teixeira)
Algumas soluções técnicas pouco convencionais (gambiarras mesmo) fizeram história no automobilismo brasileiro. Em 1969, os jovens Emerson e Wilson Fittipaldi disputaram os Mil Quilômetros da Guanabara ao lado de lendas como Ford GT40 e Alfa P33, a bordo de um Fusca de 400 cavalos, vindos de dois motores acoplados por uma junta elástica de borracha!
(Foto: obvio.ind.br)
Nos anos 1970 e 1980, qualquer um que pensasse em esportivo no Brasil tinha que falar do Opala, e necessariamente do “veneno” - modificações no motor como troca de carburador, bicos injetores e comando de válvulas para deixar o motor seis cilindros do que hoje é um dos maiores clássicos brasileiros ainda mais bravo e, obviamente, divertido.
(Foto: Opala Club de Bragança Paulista)
A chegada da injeção eletrônica ao Brasil com o Gol GTI, em 1989, foi o início de uma grande mudança: agora um programa de computador, sensores e atuadores eletrônicos passariam a ditar o comportamento (e o consumo) do motor, e a era do veneno clássico, dos carburadores Quadrijet e de tantos outros truques começava a terminar.
Só que a história não acaba aqui! No início dos 1990 tomava força também, no mundo todo, uma outra revolução: a do software livre e aberto. Programadores de computador, cientistas da computação, hobbyistas e entusiastas chegavam à conclusão de que o código-fonte dos programas não devia ser trancafiado a sete chaves numa catedral, mas sim compartilhado e melhorado de forma cooperativa e distribuída.
Essa cooperação e o livre fluxo de informação levava ao desenvolvimento de programas e sistemas mais robustos, seguros e eficientes. E o que isso tem a ver com carros esportivos ? A resposta é simples: já que o software domina o seu carro, domine o software e você vai conseguir um “veneno” que de virtual não tem nada!
Provavelmente o exemplo mais famoso disso é a MegaSquirt, um sistema completo de injeção eletrônica, com todos os sensores e um microprocessador de 8 ou 16 bits que controla os bicos injetores e ignição das velas, baseado em software livre. A Mega Squirt é comprada pelo correio, aos pouquinhos, montada nos mais diferentes tipos de carros, e configurada de diversas formas conforme os objetivos da preparação, na melhor tradição DIY (Do It Yourself, “faça você mesmo”):
Componentes da MegaSquirt
(Foto: Marcelo Garcia)
Para “conversar” com a MegaSquirt e fornecer uma interface para o piloto / mecânico / programador / usuário, usa-se um outro software livre, o MegaTunix, originalmente desenvolvido para o Linux e hoje disponível em diversos sistemas operacionais, incluindo o Windows.
Uma das funções mais divertidas do MegaTunix é emular os caríssimos “relógios autometer” (mostradores incluindo conta-giros, termômetros, razão ar/combustível, etc.): tudo é mostrado no monitor de um notebook ou palmtop, e o usuário pode definir exatamente qual o visual ele quer.
MegaTunix rodando em notebook conectado à MegaSquirt
(Foto: Marcelo Garcia)
E é a flexibilidade do código aberto que permite que sistemas assim sejam tão interessantes. O Marcelo Garcia, que forneceu fotos e consultoria para esse artigo, dá um exemplo da liberdade a que se tem acesso: ele conta que é possível, usando bastante engenhosidade, um fogão, multímetro e outros truques, atualizar o firmware da MegaSquirt para que ela usasse sensores de temperatura de qualquer carro em qualquer motor. Uma mão na roda para quem tem carros antigos (dos quais não se encontram mais peças originais) ou exóticos (cujas peças custam uma fortuna).
Calibrando sensores de temperatura no fogão
(Foto: Marcelo Garcia)
É claro que há limites para o que é possível fazer com software; nem o hacker mais brilhante do mundo vai fazer seu Uninho 1.0 rodar 25 km/l ou andar junto com o Opalão seis cilindros do seu tio. Mas saber que o “veneno” feito-em-casa ainda existe apesar de todas as inovações tecnológicas das últimas décadas é muito, muito bacana - e dá um outro sentido à expressão computador de bordo!
September 19, 2008 by Murilo Queiroz Automação, Desenvolvimento, Inovação, Processamento de Sinais 4 Comentários






