O (mito?) do herói no desenvolvimento de software
Vou continuar aqui um papo que eu comecei num fórum do mundo.it. (vc tem que se cadastrar para acessar. É chato, mas é de graça, e até bem rápido prá dizer a verdade)
Existe uma prática, ou crença, mais ou menos disseminada na gestão de projetos de TI, que é a figura do herói.
Prá quem nunca desenvolveu em equipe, o herói é aquele desenvolvedor bem acima da média, cujo esforço e talento individuais são fundamentais para “salvar” aquele projeto que estava atrasado, ou quase batendo os prazos, ou no caso mais comum, quando o prazo já está estourado e estamos falando de minimizar os danos.
Em inglês, o herói é o que chamamos de “big guns”. Quando a coisa está feia no front, traga os maiores canhões que puder para vencer a batalha.
Em alguns casos, a indústria vende a promessa que o herói será recompensado, mas você também vai ouvir vozes dissonantes dizendo que é bobagem tentar ser o herói.
Como é de se esperar, existem poucos heróis por aí. As empresas de TI disputam estes caras a tapa, e muitas vezes o passe deles se eleva (ou não, também é comum o excelente profissional de TI ralar do mesmo jeito por uma variação a mais no salário que não é proporcional ao seu talento).
Mas o fato é que existe um pouco dessa cultura da “equipe de gente normal com um cara muito bom liderando”. Até aí, nada de novo, afinal, nada melhor que trabalhar com gente boa de serviço que saiba compartilhar o conhecimento para elevar o nível geral do time e incutir algum pequeno senso saudável de “competição” ou de “não quero ficar muito prá trás”.
O problema vem quando as empresas montam esquemas de incentivos em que o jogo perde a graça, se por exemplo for o time da Albânia com o Ronaldinho no ataque. Quando as empresas privilegiam ou premiam apenas os heróis, o resto da equipe pode simplesmente chegar à conclusão que a meta do prêmio é inalcançável, e aí começa-se a “montar” no trabalho de quem se sobressai, ou assumir sempre que ele vai solucionar tudo.
Isso fica ainda um pouco mais complicado se você pensar numa indústria onde a caça aos talentos é intensa. Qual o impacto para um projeto se o seu herói é comprado pela concorrência? Quanto tempo você leva para achar outro herói?
É interessante pq muito se vê por aí sobre profissionais da área de TI que reclamam da falta de investimento no profissional por parte das empresas. Muito disto vem da idéia dos empresários que “eu posso estar gastando para capacitar o profissional para a concorrência, pq não estou disposto a pagar por uma pessoa mais capacitada“. E aí vira aquele jogo de empurra, das empresas reclamando do ensino e etc. Mas quais são as políticas destas empresas para incentivar seu corpo técnico?
Outro dia ouvi um exemplo interessante aplicado a uma equipe de vendas de um produto que não tem nada a ver com tecnologia, mas como se sabe, desenvolvimento de software não é feito com tecnologia, mas sim com seres humanos.
O exemplo era o seguinte, muito simples: é muito comum premiar os melhores vendedores como forma de incentivo. O problema aqui é o mesmo do herói. O bom vendedor é bom sempre, é um talento inerente. Então os prêmios vão sempre para as mesmas pessoas.
Pois bem, propuseram um modelo de incentivos baseado em metas que eram alcançáveis por qualquer um da equipe. E sem sorteio.
Mais especificamente, fizeram um acordo com um fabricante de artigos de couro, e compraram em grande quantidade de pastas bacanas, que todos os vendedores adoravam. E fizeram a seguinte proposta: vamos supor que cada vendedor venda em média 10 unidades do produto, e que o bom vendedor venda 60 unidades. Quem vendesse 20 unidades ganharia, sem sorteio, as pastas.
O resultado, como você pode imaginar, é que a grande massa de vendedores que vendia 10 unidades, pensou ao mesmo tempo que mais 10 unidades não era uma meta fácil, mas era bastante factível. Não só isso, mas os que vendiam 30 unidades, “passavam” as 10 unidades restantes para outros e negociavam uma parte da pasta… bem, histórias de varejo são quase sempre divertidas :-).
Desenvolvedores e vendedores são espécies muito diferentes entre si. Mas é certo que seres humanos respondem a incentivos.
A conta não é difícil de fazer. Se vc tem um “herói”, ele vai ganhar a pasta de qualquer jeito mesmo, mas qual o valor do incremento de produtividade na grande massa de vendedores “normais”?
O processo de desenvolvimento de software se torna cada vez mais organizado e mensurável a cada dia que passa, com o uso de processos mais organizados de desenvolvimento. Mas o que os gerentes de projeto fazem com estes números, além de levantar alertas a cada prazo perdido, pressionando e aliviando os desenvolvedores?
Quantos destes gerentes saem da rotina diária de monitoramento e pensam estrategicamente o que fazer com estes dados? Qual a vantagem para o seu projeto se você conseguir criar um incentivo que melhore a produtividade do seu time em 10% ou 15% por exemplo?
Talvez seu “prêmio” possa até ser bem legal… mas você precisa saber o que mexe com o coração e o ego do seu time. São pessoas, como todas as outras. Ninguém sacrifica família e vida pessoal por um pendrive. Bons funcionários demandam reconhecimento.
O cínico vai dizer que é “a cenoura na frente do burro”, mas para mim, me parece um trato razoável. Cumpra o prazo e você está fazendo a sua parte. Faça melhor dentro da sua capacidade e você é premiado pelo esforço extra. Mas só funciona com prazos que não são artificiais. Não se consegue incentivar ninguém sem ser justo.
Quantos gerentes vêem as pessoas atrás dos números? Pessoas devidamente motivadas são capazes das coisas mais geniais. Às vezes, o que falta, é saber dar a devida chance. Bolar o incentivo correto, claro, é uma das grandes questões aqui.
Outras questões são “qual a política da sua empresa para melhorar o desempenho da camada média de desenvolvedores” e “como não transformar a política de incentivos num cabo de guerra na estimativa de prazos”…
Será que existe um jeito? O RH da sua empresa sabe quais cordas puxar para incentivar a produtividade das pessoas? Ou o estímulo é aquela espada pendendo sobre a cabeça de cada um, chamado “desemprego”?
September 17, 2008 by Leonardo Kenji Desenvolvimento 0 Comentários
