Criando Gênios em Laboratório
May 8, 2008 10:00 am Biotecnologia, Ciências cognitivasMuitos já ouviram falar de pessoas com transtornos cognitivos e de desenvolvimento (como autismo) que apresentam desempenho espetacular em algumas tarefas bem específicas (como decorar a lista telefônica, desenhos com alto grau de detalhe, ou cálculos matemáticos). O termo usado nessa condição é savant, e foi retratado em filmes como Rain Man, inspirado na vida de Kim Peek (que tem memória eidética - popularmente conhecida como “fotográfica”).
Em uma das listas relacionadas ao Singularity Institute for Artificial Intelligence (temos um contato próximo: desenvolvemos projetos de IA relacionados e sou um mentor do instituto no Google Summer of Code) está sendo discutido o trabalho de Allan Snyder, um pesquisador da Universidade de Sydney, Austrália, que estuda o uso de estimulação magnética transcraniana of lobo temporal esquerdo para induzir capacidades similares às dos savant em pessoas normais.
O método é discutido nesse artigo do New York Times, de 2003. Recentemente nos Estados Unidos o canal National Geographic apresentou um documentário chamado “Accidental Genius” sobre esse tema, com experimentos em universitários voluntários.
Nesses experimentos, o desempenho de voluntários em tarefas como ler uma frase com um pequeno erro gramatical, desenhar um cavalo e estimar quantos pontos foram mostrados brevemente numa tela é primeiro avaliado. Depois disso, os voluntários são submetidos a 15 minutos de estimulação magnética transcraniana em pontos específicos do cérebro, e repetem os experimentos.
Os resultados são extremamente curiosos. O nível de detalhe dos desenhos aumenta perceptivelmente; a precisão na estimativa da contagem de pontos dobra. A capacidade de leitura, entretanto, é afetada: a frase com um pequeno erro que era lida normalmente antes do experimento agora causa dificuldade no voluntário.
O documentário pode ser assistido (em inglês) no site do National Geographic (vá no dia 7 de Maio, às 4:00 PM).
Fãs de ficção científica vão com certeza se lembrar do excelente A Deepness in the Sky, de Vernor Vinge, e dos mentats do clássico Duna, de Frank Herbert. Em ambos, pessoas comuns são treinadas e modificadas para se tornarem especialistas em uma determinada área, alcançando desempenho superior até mesmo dos computadores da ficção. Em Duna, esse desempenho é possibilitado por uma droga, sapho; no livro de Vinge, usa-se a mesma estimulação magnética transcraniana estudada por Allan Snyder.
Estarão um upgrades cognitivos disponíveis, talvez para a população em geral, talvez para casos específicos (analistas militares, financeiros, profissionais de determinadas áreas) ? Quais seriam os impactos éticos desse tipo de processo ? Serão tais medidas (bem como o uso de medicamentos supostamente capazes de aumentar o desempenho intelectual, os chamados nootrópiocos) tratadas como o doping com esteróides anabolizantes é hoje no esporte ? Perguntas interessantíssimas…


girino :
Date: May 8, 2008 @ 11:06 am
Uma pequena dúvida: Esse efeito é temporário ou permanente? O estudo verifica se tem influencias a longo prazo?
Que virar um “savant” por meia hora deve ser bacana, mas virar um autista que não consegue ler uma frase com errinhos bobos ia ser dureza!
Murilo Queiroz :
Date: May 8, 2008 @ 11:29 am
São temporários. Esse tipo de estimulação magnética é pesquisado para outros fins, também, como tratamento de esquizofrenia, depressão e Alzheimer, como explicado nesse artigo da New Scientist:
http://www.newscientist.com/article/mg19426053.300-magnets-may-make-the-brain-grow-stronger.html
Lucio Souza :
Date: May 8, 2008 @ 4:08 pm
Murilo, espero que um dia apareça mais um post seu sobre o assunto e o título seja “Faça você mesmo seu estimulador magnético transcraniano”.
muriloq :
Date: May 8, 2008 @ 5:51 pm
Para falar a verdade tem mesmo gente que faz estimuladores magnéticos transcranianos em casa! Com projeto opensource e tudo… Mas eu não teria coragem de ser minha própria cobaia, não…