Metodologias ágeis e editoras

Uma vez, um amigo do meu irmão me contou que, na Segunda Grande Guerra, quando era necessário levantar uma ponte, um monte de soldados puxava uma corda. Uma das técnicas para “ajudar” era, no meio do esforço, o comandante mandar dois ou três mais fortes largarem a corda, deixando todo o resto em pânico, que acabava por puxar a corda e levantar a ponte.

Você já passou por isso na sua vida profissional? :-D

Todo informata que se preza já ouviu falar das tais metodologias ágeis. Extreme Programming (XP), Scrum, Crystal Clear… bem, deste último talvez as pessoas tenham ouvido falar um pouco menos.

Mas todos partem de um pressuposto comum: menos burocracia, mais comunicação, mais adaptabilidade e levar em consideração que são humanos e não máquinas codificando.

Existe algo de heróico nisso. Davi e Golias. Os pequenos, amadurecidos nas trincheiras, com suas histórias de sucesso, mostrando que pequenos times bem calibrados podem ter uma produtividade incrível e que precisamos acabar com os monstros burocráticos organizacionais criados por gente de terno em grandes e lentas empresas. Até que, um dia, claro, alguém do tamanho do Google seja o símbolo da empresa grande e inovadora que deu certo.

Idealismos à parte, metodologias ágeis são um recurso como qualquer outro. Muitos de seus princípios, embora tenham nascido de boas experiências, refletem valores organizacionais óbvios e já bem conhecidos.

Eu já tinha tido uma experiência anterior com XP, mas me sugeriram ler o livro do Cockburn, de uma metodologia chamada Crystal Clear. O livro descreve de forma muito didática e objetiva um apanhado de técnicas, papéis e etapas que, combinadas, refletem práticas que tiveram sucesso em algumas dezenas de projetos de software, analisados cientificamente. Uma leitura instrutiva, fácil e agradável que eu recomendo a todos.

A metodologia Crystal Clear, me permitam dizer, é muito “leve”, com pouca burocracia, pouca papelada, exige menos disciplina (comparado com XP), muita, muita comunicação entre os desenvolvedores (1+1=3), integração contínua e interação com o cliente. Planejado para pequenos times em projetos que não sejam incrivelmente críticos (cujo erro mate pessoas por exemplo).

Ou seja, ele estabelece o que a administração chama de “processo”.

Embora possa parecer fácil, processo é uma coisa difícil, no sentido em que precisa ser contínuo e mantido a longo prazo. Se a vida fosse constante e as pessoas gostassem de repetição, ninguém seria gordo porque todos conseguiriam fazer regime, ou reeducação alimentar, ou mudar seus hábitos antes da primeira hérnia de disco.

Agilidade é um esforço constante e diário. Tudo o que é constante e diário é difícil.

Mas enfim, o mercado precisa de software bom, barato e bem feito, então as empresas precisam de alguma forma manter a qualidade e a produtividade sem engessar a estrutura e cair sobre o peso do próprio gesso. Processo é uma necessidade. Assim como o regime…

Então um dia, alguém ficou sabendo que eu tinha estudado processos de desenvolvimento de software e que eu tinha feito uma apresentação interna no labs e pediu que eu fizesse a mesma apresentação numa… editora :-)

Confesso que fiquei desconcertado e até cheguei a trocar alguns emails com o Cockburn, explicando minha situação, e ele muito atenciosamente, me contou que ele usava princípios do Crystal Clear para apertar o pessoal da editora que editava seus livros. Basicamente, ele conseguiu reduzir o tempo que a editora levava para editar o livro dele em algo em torno de 50% ou algo impressionante assim.

Então fui lá e apresentei Crystal Clear para pessoas que trabalham numa editora, onde o trabalho é muito diferente de fazer software, mas que compartilha certas características comuns as de qualquer empresa. Comunicação é fundamental. Controle. Visibilidade do processo. Interação com o cliente. Agilidade. Minimizar burocracia. Adaptar ao ambiente. Levar em conta o fator humano. Aprender com a análise sistemática das experiências obtidas.

Surtiu efeito? Bem, eu fui lá apenas falar de um mundo fora do deles. Todo conhecimento é bom, não importa o que seja e de onde venha. A receptividade foi muito boa e as pessoas acharam interessante e muito próximo da realidade delas, por incrível que pareça. As pessoas geralmente são muito boas em fazer analogias e eu acho que todo mundo pegou o espírito da coisa. Uma apresentação não muda a vida de ninguém, mas eventualmente, a semente brota na cabeça de um ou dois que assistiram, ainda que seja anos depois. Às vezes, funciona assim.

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