Dr. Strangelove e a neurogênese cortical
April 16, 2008 9:35 am BiotecnologiaQuem achou que o título do post é sobre um novo filme do Austin Powers está enganado.
A idéia desse post surgiu de uma conversa no labs com o Kenji e o Lúcio. Depois de ler o post da NetFlix do Cassio, acho que vale a pena descrever um exemplo de como a solução de problemas complicados, também na biologia, podem se resolver com idéias simples.
Um desses problemas é um tabu na neurobiologia que afirma que nascemos com um número finito de neurônios no nosso córtex cerebral e não há um crescimento de novas células do córtex enquanto vivemos. Apesar de já haver provas de que há neurogênese em casos específicos (por exemplo após derrames), um artigo que saiu na PNAS em 2006 descreve uma maneira muito sutil de provar que ao longo da vida, em condições normais de temperatura e pressão, não há neurogênese no córtex cerebral de seres humanos.
Mas e o Dr. Strangelove ?
Pra quem não conhece, Dr. Strangelove é um filme de 1964 dirigido pelo Stanley Kubrick, com o Peter Sellers. O filme é uma comédia de humor negro que satiriza a guerra fria e conta a historia de um ataque nuclear dos EUA contra a União Soviética, ordenado por um general americano, que aparentemente havia surtado. Eu citei o filme só pra tornar o título do post mais chamativo, mas o tema do filme é que interessa.
Mais propriamente, o fato de que os EUA realizaram diversos testes nucleares durante a década de 1960, na atmosfera Norte-Americana . Devido a esses testes, o nível de Carbono 14 (C14), que é naturalmente gerado pela entrada de raios cósmicos na atmosfera, foi dobrado na atmosfera americana - mais a frente eu explico por que estou falando disso.
Para quem não sabe, o C14 entra normalmente no ciclo da vida da Terra, pois se incorpora em moléculas de CO2 da atmosfera. Estas acabam por ser incorporadas na biomassa das plantas via fotossíntese e acabam entrando na cadeia alimentar – todos nós temos uma porcentagem de C14 em nossos corpos. O C14 por sua vez não é estável e acaba decaíndo. Dessa forma, é possivel medir a idade de materiais que possuem origem biológica medindo seu nível de C14 (partindo da premissa de que a produção de C14 é a mesma na atmosfera e a sua incorporação na cadeia alimentar se mantém constante).
A grande sacada desse artigo foi exatamente a medição do nível de C14 em pessoas que viveram na América do Norte durante a década de 1960, mais propriamente em tecidos do córtex cerebral e em outros tecidos, antes e depois dos testes nucleares – ou seja antes e depois do pico de produção de C14. A idéia é simples: quando as células se multiplicam há síntese de DNA e necessariamente a incorporação de novas moléculas de C14 nessas células (a medição de C14 em DNA já é comprovadamente fácil de ser feita). Logo, tecidos cujas células se multiplicam rapidamente, como o intestino por exemplo, deverão ter seu nível de C14 duplicado em relação ao período de antes dos testes. Já em tecidos em que, em teoria, não há multiplicação de células, como tecidos de córtex cerebral por exemplo, o nível de C14 deve se manter estável mesmo após o pico de produção de C14. E é exatamente isso que foi medido e comprovado no artigo.

Murilo Queiroz :
Date: April 16, 2008 @ 12:20 pm
Interessantíssimo o seu post, Maurício, kudos!
Maurício Mudado :
Date: April 23, 2008 @ 6:11 pm
Obrigado Murilo!