Dinheiro público creditado para variar
Eu me lembro muito bem a extasiante sensação de ser aprovado no vestibular. Na época eu fui aprovado em duas escolas, uma privada e outra pública. As duas excelentes. As duas me agradavam na mesma proporção. Mas, curiosamente, a alegria de passar na segunda era maior. Na época eu achei que era porque a escola em questão era mais perto de onde morava minha família mas hoje eu sei que não se trata disso. Na verdade a diferença mesmo é que a escola pública é “de graça” (nem preciso explicar as aspas). Hoje eu entendo muito bem que “receber” dinheiro público ao invés de pagar é uma fonte de enorme satisfação pessoal!
Felizmente está cada vez mais viável conseguir dinheiro do governo para fazer coisas “interessantes”. O país tem evoluido de maneira louvável neste sentido e a legislação cada vez mais prevê mecanismos para alimentar constantemente o mercado com inovações tecnológicas. Por favor não venha com flames por eu estar defendendo o governo quando o sistema de ensino público sofre com orçamentos muito aquém do necessário e com regulamentações totalmente arbitrárias e eleitoreiras. Na verdade estou apenas elogiando a evolução da legislação brasileira no sentido de criar fundos, órgãos e mecanismos para fomentar a pesquisa direcionada a inovação tecnológica.
Os fundos setoriais são um bom exemplo do que estou falando. Empresas
como as grandes distribuidoras de energia elétrica, por exemplo, são obrigadas a destinar parte do seu faturamento a fundos cujos recursos são utilizados por órgãos como a FINEP para fomentar projetos de inovação tecnológica na área.
Outras iniciativas mais recentes dizem respeito a criação entidades (nas diversas esferas da administração pública) cujo fim é especificamente gerir processos de inovação tecnológica nos mais variados setores da economia. Esse tipo de entidade é, na minha opinião, a grande peça-chave que faltava para que o ciclo de inovação contínua se fechasse e garantisse o gradual avanço tecnológico do país nas mais variadas áreas. Até então tínhamos excelentes escolas e centros de pesquisa, fontes de financiamento (agências como o CNPq, FINEP, FAPEMIG etc) com recursos garantidos pela legislação vigente e todo o suporte legal para o incentivo a projetos de inovação tecnológica mas não tínhamos o essencial: entidades cuja operação consistisse em juntar todas essas peças e facilitar a vida de uma empresa ou de um pesquisador que quisesse criar um produto inovador e lançá-lo no mercado. Uma espécie de SEBRAE voltado para empresas de base tecnológica.
Isso ainda é incipiente mas a evolução é visível. O Governo de Minas Gerais, por exemplo, criou cinco pólos de excelência no Estado, com o objetivo de coordenar e orientar o desenvolvimento econômico das regiões conforme a vocação de cada uma. Eles estão reunindo todas as informações sobre os segmentos da economia em que Minas Gerais detém tradição e expertise. Já estão em funcionamento o Pólo de Excelência do Leite, em Juiz de Fora; o Pólo de Excelência do Café, em Três Pontas; o Pólo de Excelência em Florestas, em Viçosa; e o pólo Mineral e Metalúrgico, no Vale do Aço. As atividades desses pólos de excelência ainda não estão totalmente formatadas mas a idéia é que eles sirvam de catalizadores em suas respectivas áreas de atuação, de maneira a aproximar o trabalho de produção científica do mercado. Para centralizar as atividades dos pólos ainda foi criado o Sistema Mineiro de Inovação que deve atuar como uma espécie de entidade de classe para empresas de base tecnológica que trabalham com inovação, compilando problemas comuns, provendo orientação sobre a legislação pertinente e a participação em editais públicos de subvenção econômica etc.
Quando todos esses processos estiverem maduros, será bem mais fácil você transformar aquela sua brilhante idéia inovadora em um produto disponível no mercado. Isso pode não ser tudo mas é essencial para que o país tenha uma economia competitiva e moderna.
April 10, 2008 by André Senna Inovação 3 Comentários