Inovação e o terceiro mundo
A Riqueza na Base da Pirâmide (2004)
Quem me deu a dica sobre este livro foi o Yuri.
O mote é o seguinte: segundo o autor, C.K. Prahalad, que já esteve no topo do ranking Thinkers 50, existe um grande mercado pouco explorado que é a base da pirâmide social, isto é, os pobres e os miseráveis.
Essa base pode ser altamente lucrativa se as empresas conseguirem fornecer produtos e formas de pagamento condizentes com a realidade desta classe, o que significa muitas vezes criar estratégias para garantir que essas pessoas possam pagar pelo bem ou serviço, inovar criando produtos que atendam a necessidade destas pessoas (fácil) a um custo baixo (difícil) sem perder a qualidade, ou muitas vezes disputando em qualidade com produtos caríssimos que visam mercados mais abastados (dificílimo).
Para não parecer uma viagem completa na maionese, o livro se ocupa em mostrar diversos exemplos, que vão desde como as Casas Bahia no Brasil vendem artigos e entregam no meio da favela até diversas iniciativas na Índia (que tem problemas de pobreza e corrupção tão graves ou maiores que o Brasil) desde a fabricação de próteses até sistemas informatizados rurais para ajudar os pequenos agricultores a venderem melhor suas produções.
Obviamente, não é a bala de prata dos empresários, mas ajuda a abrir um pouco as perspectivas e nos faz refletir profundamente no que chamamos de inovação. Porque embora o livro tente passar constantemente a mensagem de que incluir os mais pobres no mercado é uma forma de melhorar suas vidas e oportunidades (outras vertentes poderão argumentar que as empresas nunca deram a mínima pelos miseráveis e que se trata apenas de mais uma forma de tirar dinheiro dos pobres), a grande mensagem é da inovação.
Os requisitos destes produtos podem dispensar uma campanha com gente bonita na embalagem, mas não pode dispensar que a embalagem seja simples o suficiente para que uma pessoa analfabeta possa comprar e usar. Eis o desafio tecnológico da base da pirâmide: qualidade ao preço que eles podem pagar.
A inovação é fruto de uma necessidade, e quanto mais adverso o ambiente, mais criativa precisa ser a inovação. E em termos de adversidades, o Brasil é um ótimo ambiente :-).
Lembro de pelo menos dois bons exemplos. Um, do meu irmão, economista, que dizia que economistas brasileiros acabam tendo um perfil interessante para os mercados dada a grande quantidade de planos econômicos e vais-e-vens da nossa história. Pouco economistas viram tão de perto as inúmeras trocas de moedas, cortes de zeros, pacotes econômicos e etc quanto os economistas brasileiros.
Outro exemplo interessante, de um amigo biólogo. Conta-se que, certa vez, dois pesquisadores chegaram a uma mesma conclusão numa pesquisa, um nos estados unidos e outro na UFMG. O da UFMG, porém, contava com recursos infinitamente mais limitados e motivou uma equipe americana a vir para o Brasil, conferir COMO DIABOS o pesquisador brasileiro, com tão poucos recursos, conseguiu resultados tão bons. Heroísmo de mentes brilhantes nacionais, sem dúvida.
Eis o verdadeiro potencial do terceiro mundo que deveria ser aproveitado. Ao invés de vender a mão-de-obra commodity de baixo custo, vender a genialidade de alto valor agregado das mentes brilhantes que, democraticamente, podem surgir em qualquer lugar do mundo.
Leia mais sobre o livro do Prahalad: artigo da revista EXAME e entrevista no site do Instituto Ikatu
March 20, 2008 by Leonardo Kenji Inovação 1 Comentário